Mundo Geek

A frieza que encoberta a tristeza: Hyoga e o luto patológico. Pt-2

Hyoga e os estágios do luto

Na parte 1 apresentamos a história de Hyoga por toda a trajetória de Cavaleiros dos Zodíaco, compreendendo como o cavaleiro elaborou o seu luto. No início da saga de Hades, vemos seu claro amadurecimento em relação ao luto.

Apesar disso, vale considerar que até chegar nessa maturidade, Hyoga passou por um longo processo de luto que o prejudicou por todo o anime. Por conta disso, a necessidade de compreensão da teoria sobre o luto e o que fazer em circunstâncias como essa.

O luto é algo natural e necessário!

Antes de explorarmos a teoria de Kubler-Ross sobre o luto, vale ressaltar alguns pontos. Passar pelo luto faz parte do enfrentamento natural da vida humana. Independente da cultura, sempre se foi prestado algum tipo de homenagem ou culto a pessoa que veio a falecer.

Por isso, não leia este artigo supondo que existe uma maneira de ignorar o processo do luto. É comprovado a mudança emocional, sentimental e fisiológica que esta experiência trás ao indivíduo.

O conhecimento sobre o tema e estar em psicoterapia durante um período de luto, pressupõem a uma passagem com uma adaptabilidade a nova rotina com menos sofrimento, treinamento das habilidades sociais assim como ressocialização e também o respeito ao processo natural do luto.

Em casos de morte por motivos não naturais, avaliação se poderá ter outros quadros associados ao luto, como estresse pós traumático ou uma depressão.

O luto pode ser também por objetos!

Ao invés do que se possa imaginar, o processo de luto não se passa somente a partir da morte de algum ente querido.

A perda de um emprego de longa data, o fim de um namoro, a perda de algum membro por algum acidente, ou até mesmo a morte de algum animal. Ou seja, algum evento que mude a rotina da pessoa.

Sendo assim, todas as causas citadas também poderão passar pelas 5 fases do processo de luto. Contudo, como estamos relatando a experiência de Hyoga, falaremos do luto com a perspectiva da morte.

As 5 fases do luto:

Negação

A negação diz respeito a fase em que o indivíduo não suporta a ideia da perda de seu ente querido, que recusa a possibilidade daquilo realmente ter ocorrido. Para fugir dessa realidade, o indivíduo pode se isolar das pessoas, para não precisar compartilhar o tema com alguém.

Na negação, é encontrado pensamentos de que “pensar nisso é bobagem” “eu estou bem” “vou dar um jeito nisso”.

Com Hyoga, apesar de não encontrarmos frases tão diretivas como essa, vemos o seu comportamento de isolamento por vários anos, não se abrindo para ninguém, e quando convocado para o torneio, deseja passar uma imagem de impenetrável, frio e de que não sofre por nada.

Raiva

Nesta fase, o indivíduo externaliza a sua fúria por não concordar com o que ocorreu, se sentir injustiçado, e nesse processo, deposita a culpa ou responsabilidade pelo ocorrido no outro, sendo que no fundo, o fato que gerou a raiva já ocorreu, e não existe mais o que se fazer.

Quem passa por essa fase tem comportamento explosivo, não escuta a opinião de outras pessoas e se torna imperativo. Sendo estes comportamentos encontrados em Hyoga, no momento em que seu mestre afunda ainda mais o navio onde Natassia está.

A frase “Nem o meu mestre e nem ninguém tem o direito de tirar a minha mãe de mim!” apresenta essa intolerância e fúria, quando na verdade, Camus não fez nada que ferisse a mãe de Hyoga ou desonrasse sua memória, afinal, quem havia tirado a mãe de Hyoga, foi a própria circunstância da vida.

Barganha

Esta etapa remete a tentativa do enlutado fazer “acordos” para recuperar o que perdeu. Acordos que em sua grande maioria são feitos de maneira religiosa, esperando que se a pessoa se comportar melhor, for mais caridosa, ter uma vida digna e honrada dali em diante, poderá receber algo em troca.

Desta forma, é possível notar que neste cenário, alguns pensamentos surgem como  “eu faria qualquer coisa para ter o que perdi”, “se isso acontecer, prometo que nunca mais farei algo ruim” ou “vou fazer tudo certo daqui em diante que as coisas irão melhorar”.

Apesar de não ser explícito a nível de fala, Hyoga pode ter passado por esta etapa, uma vez que ele defende uma deusa (Atena) que ele próprio não cultiva como a sua religião, mas ainda sim dá a sua vida “por ela” pela compreensão de que assim ele está fazendo algo bom. Mas a dúvida é, o que ele gostaria de receber em troca por se tão generoso? Uma hipótese do que seria, é que ao ser derrotado por Camus, ele se dá por satisfeito, que já fez o seu máximo, e já tem o direito de visitar sua mãe novamente.

Depressão

Inicialmente, vale ressaltar que o estágio depressivo do luto é diferente do transtorno de humor da depressão, que já foi abordado no post sobre Bojack Horseman.

Apesar de ter características parecidas, como a tristeza profunda ou sintomas como insônia ou perda do apetite, não é uma regra casos que o luto comum se desencadeará para o episódio depressivo maior.

A depressão vinda do luto, é o descarregamento da emoção de profunda tristeza, ao notar de que nada que foi feito anteriormente (negação, raiva, barganha) foi suficiente para impedir a realidade. Este é um estágio onde a desesperança e a nostalgia daquilo que não pode ser resgatado surge.

Pensamentos de como “meu mundo perdeu a cor” e “nunca será como antigamente” são recorrentes, além de surgir o desvalor de si próprio, ao se auto considerar como inútil ou que não se ama. Neste momento, podem também surgir as ideações de se juntar a pessoa morta.

O estágio depressivo em Hyoga é muito evidente em seu discurso. Como em sua luta contra Camus, em que Hyoga aceita a morte apenas para estar perto de sua mãe. O próprio cavaleiro afirma, que ao perder o acesso a sua mãe, Hyoga havia perdido o único consolo em sua vida e força, que no restante, resta apenas o seu “infeliz nascimento”.

Aceitação

A ultima fase, é a compreensão de que algumas coisas não temos controle em nossa vida, sendo uma delas, de que não havia o que poderia ser feito para mudar o curso da história, e de que o a morte (e consequentemente o luto) faz parte da vida.

Quando se aceita a realidade e o curso em questão, também renasce a esperança na pessoa, de que o que passou foi muito ruim, mas que uma nova vida e coisas novas estão para surgir. “Tinha que ser assim” “sofri muito mas também aprendi” são formas de pensamento nesse estágio.

No início da saga de Hades, Hyoga entende seu novo papel, e guarda apenas as boas recordações de seu mestre e de sua mãe. Que apesar da enorme saudade, o cavaleiro os guarda em seu coração, e os mantém vivo em sua memória, levando o que aprendeu e viveu de melhor com eles.

Como diferenciar um luto comum de um luto patológico?

Como já dito anteriormente, o luto é um processo natural, mas a má elaboração dele, pode desencadear o luto patológico, que este sim, poderá levar a depressão.

De acordo com o DSM-5, existe o luto normal, e o transtorno do luto complexo persistente. Hyoga se encaixa na segunda categoria e em seguida, iremos expor os critérios a serem atendidos.

Luto complexo persistente

Para a melhor compreensão,  os principais sintomas que o cavaleiro de Cisne apresentar, será colocando em negrito.

O indivíduo experimentou a morte de alguém próximo; em crianças (caso de Hyoga) os seguintes sintomas. Devem persistir em pelo menos 12 meses após a fatalidade: Saudade persistente do falecido, intenso pesar e dor emocional com a morte e preocupação com o falecido.

Também, ao menos 6 dos próximos 12 sintomas em sequência devem ser atendidos: Os 6 primeiros sintomas são relativos a sofrimento reativo a morte. 1 dificuldade em aceitar a morte ; 2 experimentar incredulidade com a perda; 3 dificuldade com memórias positivas com o falecido; 4 amargura ou raiva relacionada a perda; 5 Avaliação de culpa pelo evento de luto; 6 evitação excessiva de lembrança da perda.

Os próximos 6 sintomas diz respeito a perturbação social ou de identidade. 7 desejo de morrer para estar com o falecido; 8 desconfiança em outras relações; 9 Se isolar e ficar sozinho desde a morte;10 sentir que a vida não tem sentido sem o falecido; 11 Perda de sua própria identidade por conta do luto; 12 Dificuldade de se relacionar, a nível de trabalho, amizade ou amoroso.

Os prejuízos de Hyoga pelo luto

Cumprindo vários dos sintomas, pode-se observar como Hyoga se isolou do mundo. Por 6 anos, manteve contato apenas com seu mestre, Isaak e uma breve relação com um garoto da vila onde vivia, que o mantém atualizado sobre o que acontece.

Tal isolamento também afastou Hyoga sobre como ele deve se expressar em certas situações. Praticamente vemos o cavaleiro com ações somente do semblante sério, ou quando sua ferida do luto é exposta, chorando.

Por conta disso, também é notado que Hyoga é o único dos cavaleiros de bronze que não tem algum tipo de “affair” com algum personagem. Seiya, Shun, Ikki e Shiryu trazem em seu pretexto romances ou flertes por seus treinamentos, enquanto Hyoga, não temos nenhuma menção.

Também é sua falta de adaptabilidade em contextos gerais. Como por exemplo, ao chegar o convite para o torneio galático, Hyoga visitou sua mãe para pedir desculpas por fazer algo novo em sua vida.

Finalmente, a falta de amizade e de confiar, ou de ser confiável aos outros. O cavaleiro de cisne não se permite envolver emocionalmente com os demais cavaleiros, estava lá pela missão que lhe foi imposta. Esta mudança de mentalidade, ocorreu somente após a ressurreição feita por Shun.

Como a terapia poderia auxiliar o enlutado Hyoga?

Pela terapia cognitivo comportamental, a sessão para o enlutado terá como direcionamento a readaptação rápida, para se aliviar dos sintomas causados pelo luto,  e se reinserir na sociedade com novas práticas, amizades e funções.

É desejado que o paciente desenvolva durante as sessões sua capacidade de resolução de problemas, para que o enlutado perceba que existe outras formas de lidar com suas dificuldades, habilidades sociais e coping (esforços cognitivos e comportamentais para lidar com situações de dano) para desenvolvimento da assertividade e aos poucos, preencher novos espaços, saindo da zona de conforto. A partir disso, o cliente terá condições de identificar quando pensamentos irracionais sabotadores surgem, podendo-o deter, antes que o pensamento sabote futuras ações.

Vale também afirmar que o enlutado pode sofrer recaídas, para isso, também deve ser treinado o auto monitoramento e a prevenção a recaída, para ou situações que ative o gatilho mental que gere mal estar, ou treinamento para dessensibilizar uma situação, para que o enlutado seja suficientemente capaz de enfrentar a situação traumática.

Todas essas questões estão englobadas na Psicoeducação, que irá promover a compreensão do paciente a respeito da perda sofrida, além de deixar claro como são os procedimentos e a teoria cognitiva, os objetivos, procedimentos e expectativas do tratamento. Com essas perspectivas, Hyoga poderia se reinventar e superar seu luto de maneira menos trágica, e poderia prosperar em novos papéis em sua vida, que se encontram estagnados.

O artigo foi escrito por Giovani Lucena CRP-04/55806, que atende em Uberlândia MG. Caso tenha interesse em conhecer mais sobre seu trabalho ou agendar sua sessão, clique aqui! Gostou do nosso artigo? Gostaria de mais artigos sobre cavaleiros dos zodíaco? Deixe nos comentários sua sugestão!

3 comments
  1. […] deseje ler a intervenção proposta para o cavaleiro e seu processo de luto, clique aqui para acessar a parte […]

  2. Muito bom o texto. Me identifiquei demais em algumas passagens.
    Ansiosa pelos próximos textos.

    1. Muito obrigado pelo comentário Fabi! Nossa intenção é de produzir artigos tanto interessantes quanto relevantes para o leitor, que possa se identificar com a situação proposta. Aguardamos você no próximo artigo e também, fique a vontade para sugerir por novos personagens a vir ao nosso divã!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *