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A frieza que encoberta a tristeza: Hyoga e o luto patológico. Pt-1

Hyoga e o luto patológico

Saint Seiya ou Cavaleiros dos Zodíaco é uma obra dos anos 80, que nos anos 90 se popularizou no Brasil, sendo um dos animes que abriu as portas para que outras obras japonesas fossem transmitidas em nosso país. Fomos apresentados a vários personagens marcantes, como Seiya, Shun Shiryu e Hyoga.

A sua mitologia envolvida, superação e cenas de ação marcaram a infância de muitas pessoas. Além disso, grandes histórias para descrever a personalidade de cada protagonista. Este post será dedicado ao cavaleiro de cisne, Hyoga, sobre a sua trágica perda em sua infância, e de como isso o influenciou.

Hyoga é retratado como o mais racional dos cavaleiros (até pela sua ligação elementar, de ser associado ao gelo e frieza) mas isso na verdade acontece, por sua fragilidade interna, que por vários momentos quando exposta, se apresenta como um dos cavaleiros mais sensíveis.

Vale ressaltar que não seguiremos a cronologia da série e sim a cronologia de Hyoga, afinal, sabemos mais sobre a infância do cavaleiro de Cisne apenas com o desdobramento de vários confrontos, uma vez que ele não é aberto para contar sua história anteriormente aos demais cavaleiros.

Caso deseje ler a intervenção proposta para o cavaleiro e seu processo de luto, clique aqui para acessar a parte dois!

Antes de continuar a leitura, já sugerimos a trilha sonora para prosseguir, a clássica música quando Hyoga se lembra de sua mãe, “Inside a dream”. O artigo foi escrito pelo psicólogo Giovani Lucena CRP-04/55806.

A infância de Hyoga

Hyoga é filho de de Mitsumasa Kido, pai de todos os cavaleiros de bronze (!!!) com Natassia, sua mãe. Seu pai o rejeita, fazendo que até os 6 anos, Hyoga seja cuidado por sua mãe na Sibéria. Um dos poucos gestos de carinho que temos conhecimento entre mãe e filho, é o presente que sua mãe dá a Hyoga, uma cruz do norte em um rosário.

Porém um trágico incêndio no navio que transportava Natassia e seu filho, fez com que selecionadas pessoas pudessem naufragar do navio, por terem poucas baleeiras, resultando no resgate somente ao garoto, sendo sua mãe sentenciada ao cruel destino da morte.

O garoto fica aos prantos, enquanto sua mãe, a distância, tenta acalma-lo e se despede. Após o evento, Hyoga como um garoto órfão, foi transferido para a fundação Graad, em que os demais futuros cavaleiros, também órfãos, eram acolhidos.

Após algum tempo neste orfanato, seguindo uma rotina de criança (brincar e interagir com outras crianças) foi realizado sorteio para saber onde cada jovem do orfanato seria enviado para passar por um árduo treinamento para se tornar cavaleiro (vale ressaltar, que isso era obrigatório, os garotos não tinham opção). Hyoga foi enviado para ser treinado na Sibéria, onde por perto havia ocorrido o acidente no navio.

Treinamento e motivações

O garoto chegou a Sibéria para ser treinado por Camus, cavaleiro de ouro de aquário, assim como seu parceiro de treino Isaak, que já treinava a um ano com o mestre.

Durante um dos treinamentos, Isaak perguntou a Hyoga sobre suas intenções com o treinamento, uma vez que Isaak treinava para se tornar um cavaleiro justo e defender os inocentes contra qualquer mal, custe o que custar.

Todo o heroísmo de Isaak foi frustrado, quando Hyoga contou que treinava não para ser cavaleiro, e sim para criar resistência ao frio e conseguir visitar a sua mãe naufragada.

[Hyoga] Eu sei que para você o meu objetivo é um sonho sem a menor importância, mas, minha mãe é a única pessoa que pode me ajudar a ter forças para continuar vivendo, mesmo que esteja morta.

Incidente no fundo do mar

Apesar de decepcionado, Isaak avisa que caso Hyoga tente fazer isso, que ele tome cuidado com as correntezas marítimas no mar, que poderiam ser fatais.

De maneira imprudente, na primeira oportunidade que Hyoga teve de quebrar o gelo que permitia o acesso ao mar, ele vai em direção ao navio de sua mãe, porém, as previstas correntezas surgiram, deixando Hyoga entrelaçado nas cordas do navio naufragado inconsciente.

Izaak vai ao fundo do mar resgatar o amigo, mas as correntezas os atacaram novamente, fazendo com que Izaak ferisse gravemente seu olho em uma estaca de gelo e em um ato de heroísmo, devolve Hyoga a superfície, enquanto Izaak é levado pelas correntezas.

Com isso, Hyoga sentiu o peso de outra perca, a responsabilidade do sumiço de seu amigo por conta de sua imprudência em querer visitar sua falecida mãe. Em torno de um ano após este evento, Camus encerra seu treinamento, ficando o futuro cavaleiro, isolado e treinando por conta própria.

Conquista da armadura de cisne

Seis anos se passaram após a despedida de seu mestre e Hyoga ainda não havia se apropriado da armadura de cisne. Fato curioso, que não havia conquistado  anteriormente porque não queria.

Como já dito, sua motivação era de visitar a sua mãe no fundo do mar gelado. Pode-se observar que para conseguir nadar rapidamente e abrir as portas emperradas do navio, Hyoga leva apenas uma rosa na boca para a visita de sua falecida mãe.

Com essa inferência, pode-se notar as incontáveis vezes que Hyoga visita sua mãe, que está cercada de flores. Mesmo com a passagem do tempo tão longa, Hyoga se encontrava estagnado, sem perspectivas novas. Até que o santuário convoca todos os cavaleiros de bronze para participar de um torneio.

Torneio galático

Ele recebe um convite especial, de que ele deve assassinar os demais participantes, uma vez que os demais cavaleiros não eram dignos de usar a armadura, devido ao uso indevido, em utilizá-las para finalidades egoístas e não para proteger Atena.

A partir desse momento, Hyoga facilmente consegue destruir a rocha de gelo que guardava a armadura de cisne (que era tratada como uma barreira indestrutível) para participar do torneio.

No torneio, vemos Hyoga eliminar com facilidade o seu adversário cavaleiro de hidra. E no momento de alegria por vencer, só via a imagem e pensamento relacionado a sua mãe.

Apesar deste pensamento, Hyoga não externaliza esse sentimento, sempre passando para seus rivais ou próximos concorrentes, que ele era o cavaleiro mais poderoso e racional de todos.

Perseguição a Ikki de Fênix

Ikki interrompe o torneio e rouba a armadura de premiação. Com isso Hyoga e os demais cavaleiros se unem para enfrentá-lo. O cavaleiro de cisne é o primeiro a enfrentar fênix.

Ikki usa o golpe fantasma de fênix em Hyoga, o levando ao seu pior pesado. Hyoga se imagina visitando sua mãe no fundo do mar, porém as correntezas começam a destruir o navio e o pesadelo termina com Hyoga vendo a imagem de sua mãe deteriorada.

Ao ser derrotado, Hyoga volta a pensar no carinho de sua mãe. Seria um encontro fatal, caso o a cruz do norte dada por sua mãe não estivesse por baixo de sua armadura, impedindo que o golpe de Ikki perfurasse seu corpo.

[Hyoga] Saiba que essa é a lembrança mais querida que guardo da minha mãe, a prova do amor que você tanto desprezou.

Após todos os cavaleiros derrotarem Ikki e superarem a perseguição imposta pelos cavaleiros de prata, Hyoga volta a sibéria para avisar a sua mãe sobre seu novo objetivo.

[Hyoga] “Mamãe, eu não voltarei a vê-la até recuperar a armadura de ouro”

As doze casas e a primeira luta contra Camus

Atena é atacada e resta aos cavaleiros de bronze superar as 12 casas dos signos para poder salva-la. Por ironia do destino, é reservado a Hyoga o confronto com seu antigo mestre, Camus de aquário.

A luta entre eles começa, e claramente o cavaleiro de ouro está em um nível muito acima. Para provocar o potêncial máximo de Hyoga, Camus o atinge em sua maior fraqueza.

[Camus] Já se despediu de sua mãe Hyoga?

Camus lança uma magia que  afunda ainda mais o navio naufragado em que a mãe de Hyoga está, tornando impossível que Hyoga a visite outra vez. Neste momento, flashbacks surgem na cabeça de Hyoga com sua mãe, o fazendo ficar aos prantos.

A fragilidade escancarada diante de seu mestre

[Hyoga] Mesmo que ela esteja morta, ela tem sido a minha única força e consolo da vida…

[Camus] Jamais em minha vida culpei as pessoas que não conseguem se esquecer do passado e que as vezes caem em prantos por causa disso. As pessoas comum são assim, mas você não! Você é um cavaleiro! Deveria me agradecer por tirar uma fraqueza de sua mente.

[Hyoga] Já chega! Nem o meu mestre e nem ninguém tem o direito de tirar a minha mãe de mim!

[Camus] Você está muito cheio de amor pela sua mãe e muito cheio de ódio por mim, dessa forma, você nunca conseguirá alcançar o cosmo máximo.

[Hyoga] Você está dizendo para esquecer a minha mãe naquele abismo profundo? E-eu não posso! Eu não posso esquecer a única coisa que restou pra mim no mundo, eu não posso deixar de lado as minhas lembranças, não posso Camus! Não posso…

O golpe de misericórdia contra o antigo pupilo

Ao perceber que o trauma de Hyoga era irreversível, Camus dá o ultimo golpe no cavaleiro de cisne. Em seu pensamento de último suspiro, ao invés de tentar se reerguer, Hyoga se conforta, por se encontrar com sua mãe.

[Hyoga] Eu perdi… Estou totalmente derrotado, eu já posso ir para o mundo em que minha mãe está me esperando…

Nessa conversa no além, ouvimos a mãe de Hyoga…

[Natassia] Hyoga… não venha aqui… você disse que teria forças pra viver, apesar de eu ter partido… não foi?

[Hyoga] Me desculpe mamãe mas eu não posso, já não dá mais!

[Hyoga] Saori… me desculpe, não consigo alcançar o sétimo sentido, eu não estou qualificado para viver como cavaleiro, nada mais me importa agora… Me perdoe, Seiya, Shiryu, Shun, eu vou para onde minha mãe está! Adeus…

Camus aprisiona Hyoga em uma esfinge de gelo, para preservar o seu corpo e sua memória.

A ressurreição vindo de seus amigos e revanche

Dado como morto, Hyoga recebeu uma segunda chance de viver por conta do sacrifício de seus amigos. Shiryu conseguiu romper a esfinge de gelo, enquanto Shun, utiliza todo o seu cosmo para trazer Hyoga a vida.

A partir desse momento, Hyoga reconhece o sacrifício dos outros, e que sua vida tem um sentido além que o de honrar a sua mãe. Ele compreende que como seu dever de cavaleiro, deverá prosseguir com a sua missão e defender seus amigos e Atena a todo custo.

Carregando Shun nos braços, Hyoga interrompe a luta entre Milo, cavaleiro de escorpião, que estava derrotando Seiya e Shiryu e se coloca como o novo desafiante.

Mesmo com a clara diferença de habilidade, e sendo provocado a todo instante por Milo para desistir do confronto. Hyoga com uma nova motivação, é capaz de convencer Milo de que ele é um cavaleiro digno a seguir para o próximo desafio, que seria a revanche com Camus.

[Hyoga] Embora eu esteja perdendo todos os meus sentidos, o rosto de minha mãe agora está em minha mente assim como a ajuda dos meus amigos!

[Hyoga] Eu tenho amigos para quem eu jurei a minha vida e eles continuam lutando desesperadamente, eu não quero que me deixe dormindo apenas para sobreviver, não adiantaria eu reviver daqui a centenas ou milhares de anos. Minha vida vale porque estou aqui e agora e é uma felicidade poder andar no mesmo caminho que os meus amigos, não importa o quão difícil isso possa ser! Houve um tempo em que eu amaldiçoava o meu infeliz nascimento, mas agora eu agradeço a Deus por me permitir viver ao mesmo tempo que os meus amigos!

Em seguida, Hyoga tem sua revanche com Camus. Antes da luta acontecer, o cavaleiro de cisne agradece a Camus por ajudá-lo a superar o seu trauma passado. Durante a revanche, Hyoga consegue alcançar o sétimo sentido e superar Camus, o derrotando, que veio a falecer com a força do golpe de Hyoga.

Saga de Poseidon e reencontro com seu antigo amigo

Ao fim das doze casas, uma nova ameaça surge, sendo Poseidon, que ameaça a existência terrestre. Os cavaleiros de Bronze são enviados ao reino de Poseidon, e um dos generais do mar, é ninguém menos que Isaak, o antigo parceiro de treinos de Hyoga.

Reencontrar o antigo amigo, trouxe a tona todo o peso a consciência de Hyoga, por ter sido o responsável pelo sumiço de Isaak e também pelo seu olho cego. Para ter o perdão de Isaak, Hyoga pede que o mesmo perfure o seu olho e que depois o mate, para que ambos fiquem quites.

Sem remediar, Isaak realiza tais ações, cegando um dos olhos de Hyoga e o ferindo gravemente. Mas antes que Hyoga morresse, ele percebe como Isaak se tornou alguém cruel, completamente oposto ao que jurava defender, que seria os indefesos e a justiça.

Sendo esse na verdade, o que o próprio cavaleiro de cisne se tornou. Ao refletir isso, Hyoga derrota seu amigo sem hesitar.

Saga de Hades

Na ultima saga, vemos Hyoga definitivamente, enxergando a situação do luto com outros olhos. Hyoga leva um buquê de flores para a superfície do gelo e não mais tendo que visita-la no fundo do mar.

Finalmente, é aceito que o fundo e gelado mar, é o túmulo de sua mãe e que ele pode seguir com sua vida, sem deixar de guardá-la em sua memória.

[Hyoga] Mamãe, eu não a vejo desde que o barco em que você descansa, afundou nas profundezas do mar congelado… eu espero que você não esteja se sentindo só… a essa altura, acredito que tenho forças para enfrentar as maiores profundidades do mar, mas eu jurei que nunca mais voltaria a te ver novamente, mesmo assim, eu nunca te esqueci, nem por um instante… Mamãe e também meu mestre e amigo Camus, todos vocês estão em meu coração e em minhas orações… Daqui da Sibéria eu continuarei rezando pelas suas almas. Jamais me esquecerei de vocês.

Menções honrosas a filmes (não canônicos)

Dois filmes retomam o luto e a superação de Hyoga diante de certos adversários. O filme Os cavaleiros dos zodíaco e os guerreiros do armageddon e A lenda dos defensores de Atena.

O primeiro filme, retrata personagens do cristianismo e da bíblia. Hyoga por ser católico, reconhece seus adversários. Ele enfrenta o cavaleiro Moa, que referencia Moloc, o demônio que oferece em troca o que a pessoa mais ama nas chamas por poder.

Moa cria a ilusão de que Hyoga está enfrentando a sua mãe Natassia e mesmo sabendo ser uma ilusão, caso Hyoga a destrua, significa destruir o que mais ama e perder toda a sua memória sobre o amor de sua mãe.

Mesmo com a forte ameaça, Hyoga desfere seu golpe mais poderoso contra a ilusão de sua mãe, mesmo sabendo das possíveis consequências disso.

No filme A lenda dos defensores de Atena, Hyoga enfrenta o cavaleiro Berengue, que estava a serviço do deus Abel. Berengue mostrou sua força ao facilmente derrotar o mestre de Hyoga, Camus de aquário.

Cisne estava perto de perder a batalha, quando sua cruz do norte cai de sua armadura e ele relembra de sua mãe. Culminando em um forte golpe que derrota Berengue.

[Hyoga] Como eu posso me ajoelhar perante um deus que tenta destruir a Terra? Ah… essa é a cruz do norte que minha mãe entregou… Minha querida mãe… você não teve uma vida cheia de alegria e encantamento, mesmo assim, ela jamais odiou ninguém… acreditava em Deus e me ensinou a importância do amor… Ela me ensinou a respeitar a amizade, o amor e todas as coisas que existem nesse mundo. Merengue, o Deus de minha mãe era um deus verdadeiro, e não um farsante como Abel!

Em ambos os relatos, é notado como Hyoga utiliza a sua religião para o bem de todos e também como enxerga sua mãe como um alicerce para seu crescimento, e não mais como um obstáculo.

E se Shun não se sacrificasse para ressuscitar Hyoga?

Caso ocorresse dessa forma, Hyoga teria morrido como alguém ressentido, que até aquele momento não havia superado a morte de sua mãe Natassia. Consequentemente, não chegaria a ajudar os cavaleiros em várias batalhas determinantes e não cumpriria sua promessa com sua mãe, de que seria capaz de seguir a sua própria vida.

Hyoga teve a oportunidade de uma segunda chance na vida, mas nem todos tem essa sorte. O que poderia então ser feito para que o cavaleiro de cisne não precisasse passar por tantos traumas e derrotas para ressignificar a sua dor da perda? Como podemos fazer para superar um luto, ou ao menos não sucumbirmos a uma depressão causada pelo luto?

Veremos isso no próximo artigo, onde falaremos da teoria e intervenção em casos sobre luto patológico! Acesse o próximo post clicando aqui.

3 comments
  1. […] parte 1 apresentamos a história de Hyoga por toda a trajetória de Cavaleiros dos Zodíaco, compreendendo […]

  2. “Eu tenho amigos que jurei dar minha vida e eles continuam lutando desesperadamente, não quero que deixe dormir apenas para sobreviver, não adiantaria reviver daqui à centenas ou milhares de anos, minha vida vale porque eu estou aqui agora é uma felicidade andar no mesmo caminhos dos amigos, não importa o quão difícil isso possa ser, houve um tempo que eu amaldiçoava meu infeliz nascimento mas agora eu agradeço à Deus ter me permitido viver ao mesmo tempo dos meus amigos, não importa que eu esteva privados do meus sentidos, jamais deixarei de lutar até morrer” (Hyoga) Sabe dizem em qual luta Hyoga falou isso?? Abraço

    1. Obrigado pelo comentário Marcelo! Hyoga usa essa frase contra Milo de escorpião, durante as dose casas, após ser reanimado por Shun.

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